quinta-feira, julho 23, 2015

Os últimos dias do grande Olacyr de Moraes

Mônica Bergamo
Bilhões, mulheres e solidão
Olacyr de Moraes morre com poucos amigos, tentando voltar ao topo e pedindo um encontro com o ex-presidente Lula
Cinco dias antes da morte do empresário Olacyr de Moraes, ocorrida na quarta (16), um de seus funcionários mandou um e-mail ao Instituto Lula, a pedido do chefe, para solicitar um encontro com o ex-presidente. A mensagem dizia que ele queria tratar de assuntos pessoais, informam os repórteres Bela Megale e David Friedlander.
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Mesmo debilitado por um câncer de pâncreas, Olacyr sonhava em voltar a ter relevância como empresário. Desta vez o ex-bilionário, ex-rei da soja, ex-banqueiro e ex-empreiteiro queria explorar jazidas de tálio na Bahia, sua última aposta no mundo dos negócios. Buscava o apoio de Lula para fazer o projeto deslanchar.
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As reuniões com executivos de sua mineradora, a Itaoeste, eram alguns dos poucos compromissos da rotina solitária do empresário nos últimos anos, quando já tinha perdido a maior parte de sua fortuna.
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No aniversário de 84 anos, dia 1º de abril, ganhou festa surpresa organizada pelos funcionários da casa. Além deles, apareceram duas sobrinhas, os enfermeiros, algumas das companheiras mais jovens que ele tanto apreciava e um ou outro amigo.
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Nada parecido com a badalação das festas que promovia ou frequentava. Quando fez 80 anos, lotou uma conhecida casa noturna de São Paulo com 200 convidados. Nessa fase, ele ainda cultivava uma caderneta que chegou a ter o nome de 30 mulheres, com o valor que cada uma recebia dele por mês.
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"Não pense que no caderninho tinha só meninas. Tinha amigos que quebraram e perderam tudo, e ele ajudava com R$ 5.000 por mês", diz a sobrinha Gisele Moraes, que trabalhou com Olacyr e era a pessoa da família mais ligada a ele. "A história dele com as meninas era interessante para os dois lados. Ele sempre tinha companhia e as meninas tinham a vida delas, namorados, não ficavam só com ele. Nesse final da vida, elas desapareceram."
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Desde que começou a tratar a doença, há pouco mais de um ano, o empresário passava a maior do tempo na varanda de seu apartamento de 600 m², no Itaim, assistindo a noticiários na TV. Para relembrar os tempos de prestígio, montou uma sala com dezenas de fotos das modelos com quem já tinha saído, celebridades como Xuxa e Pelé, e seu último encontro com uma autoridade, a presidente Dilma Rousseff, em 2012.
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Olacyr carregou por muitos anos uma grande mágoa dos empresários e banqueiros que lhe deram as costas quando seu império começou a desmoronar, em 1995. Ele tinha sido um dos brasileiros mais jovens a entrar para a lista de bilionários da "Forbes", foi dono de 40 empresas e da maior produção de soja do mundo. Era bajulado por políticos e empresários.
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O vento mudou depois que começou a construir a Ferronorte para transportar a produção do Centro-Oeste para o porto de Santos. Ele esperava recursos públicos que nunca chegaram para financiar a ferrovia e passou a tomar empréstimos para bancar o empreendimento. Endividado, vendeu a maior parte de seu patrimônio para pagar o débito de R$ 1,4 bilhão.
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"Olacyr foi corajoso a ponto de tentar construir uma ferrovia daquele tamanho comprometendo dinheiro pessoal", diz João Santana, presidente da Constran, construtora de Olacyr e vendida em 2010 para o grupo UTC.
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Os pagamentos mensais feitos pela Constran, cumprindo acordo firmado com Olacyr, sustentaram o empresário nos últimos cinco anos, quando suas despesas chegaram a R$ 200 mil só com gastos médicos. As prestações atrasaram recentemente, após o grupo UTC se tornar alvo da Operação Lava Jato, que investiga esquema de corrupção na Petrobras.
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Os últimos anos do empresário ficaram marcados pela presença de oportunistas que lhe vendiam ideias furadas para arrancar dinheiro. Um deles foi o ex-senador boliviano Andres Gúzman, assassinado em 2014. Ele foi morto a tiros pelo motorista de Olacyr, que alegou à polícia não suportar mais ver Gúzman arrancar dinheiro do chefe com a promessa de negócios impossíveis.
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O episódio abalou a saúde já frágil do empresário. De um ano para cá, ele praticamente não fazia nada sozinho, e repetia: "Quero ir embora. Chega dessa vida". Pediu a pessoas próximas que não o reanimassem, caso tivesse uma parada cardíaca.
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Olacyr demorou para aceitar o tratamento médico do câncer. Recebeu o diagnóstico em 2013, mas recorreu a tratamentos alternativos como as cirurgias espirituais com o médium João de Deus, em Abadiânia (GO). "Ele tinha medo de operar. Antes de João de Deus, tentou vários tratamentos naturais", diz Sarah Mansur, amiga e assessora pessoal do empresário. Pouca gente foi ao velório, realizado no Hospital Albert Einstein. Segundo assessores de Olacyr, alguns artistas e políticos do Centro-Oeste telefonaram para prestar solidariedade.
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Familiares reclamaram que a cerimônia foi curta e terminou antes da hora marcada por iniciativa de Marcos, filho do empresário. Dizem que isso explica, em parte, a falta de pessoas no velório. Procurado, Marcos de Moraes não deu resposta até a conclusão desta edição.

torização escrita da Folhapress (pesquisa@folhapress.com.br).


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Embora tenha ficado famoso pelo título de "O Rei da Soja", Olacyr de Moraes já estava há anos afastado do agronegócio. Durante sua carreira de empreendedor, chegou a ter mais de 40 empresas nos setores agrícola, de construção civil e exploração de minérios – área que concentrava seus principais investimentos atualmente.
O empresário morreu aos 84 anos na madrugada desta terça-feira (16) em São Paulo. Segundo o seu site oficial, ele lutava contra um câncer de pâncreas descoberto no início de 2014.
Na década de 70, Olacyr virou o maior produtor individual de soja do mundo ao apostar no potencial agrícola do Centro-Oeste, aproveitando a grande cheia de 1973 do rio Mississipi, que devastou as lavouras dos Estados Unidos.
Ele chegou a ser proprietário de 50 mil hectares de plantações de soja. Na fazenda Itamarati, no Mato Grosso do Sul, que mais tarde acabou sendo vendida ao Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), investiu na pesquisa e produção de grãos e algodão em uma época em que poucos acreditavam no potencial do solo da região. 
"O resultado de seu empenho fez com que ele ganhasse o apelido de 'O Rei da Soja' por se tornar o maior produtor mundial desse grão no mundo e ajudando a elevar o Brasil à posição de um dos maiores produtores agrícolas do planeta", diz o comunicado que informou a morte do empresário.
Empresários desde os 19
Olacyr Francisco de Moraes nasceu em Itápolis, interior do estado de São Paulo, no dia primeiro de abril de 1931. Já aos 14 anos Olacyr começou a trabalhar auxiliando seu pai, que era vendedor de máquinas de costura, e mais tarde comprou uma pequena transportadora chamada "Expresso Foguete".
A carreira de empresário começou aos 19 anos, ao abrir com o irmão Odimir e o pai a empresa de transporte de cargas 'Argeu Augusto de Moraes e Filhos Ltda'.  Ao transportar pedras para a pavimentação de ruas em São Paulo, percebeu que poderia lucrar mais se, além do transporte de cargas, também pudesse executar a pavimentação. Em 1957 nascia então a empresa Construção e Transportes Constran Ltda.
Foram os lucros com a empreiteira que levaram o empresário a diversificar os negócios e a entrar também na agropecuária.
A chegada ao agronegócio foi em 1967, quando, se beneficiando dos incentivos fiscais do governo, criou a Orpeca S.A. com um grupo de empresários, para criação e engorda de gado no norte do estado do Mato Grosso. Em 1975, no município de Diamantino (MT), inaugurou a empresa Itamarati Norte S/A que ocupou uma área total de 110 000 hectares para o plantio de grãos.
Além de soja e algodão, Olacyr criou o banco Itamarati e investiu também em cana-de-açúcar, ferrovias e hidrelétricas.
Ex-bilionário
Quando estava no auge, ainda nos anos 90, entrou na lista dos 200 homens mais ricos do planeta da revista Forbes, com um patrimônio estimado em US$ 1,2 bilhão.
Foi no final da década de 90 que o império começou a entrar em crise após algumas apostas frustradas, como a ferrovia Ferronorte. Repleto de dívidas, foi obrigado a se desfazer de vários negócios e perdeu também as fazendas. Desapropriada pelo governo, a fazenda Itamarati virou um assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Atualmente concentrava seus investimentos na área de mineração, à frente da Itaoeste Serviços e Participações LTDA e da OFM Mineral Star.
"O homem que começou com uma pequena transportadora de pedras para a Prefeitura de São Paulo, se transformou em empresário, dono de banco, construtor de hidrelétrica, metrô e ferrovia além de ter sido o maior produtor individual de soja do mundo e um dos maiores de algodão e milho do Brasil, continua acreditando e investindo no Brasil. Durante sua trajetória profissional Olacyr recebeu mais de 200 títulos, entre diplomas, méritos e medalhas, como o de engenheiro honorário e de administrador de empresas, honraria recebida do governo brasileiro pelo reconhecimento de sua importante contribuição ao desenvolvimento de nosso país", diz a biografia publicada em seusite oficial.
Pesquisador lamenta
O pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste Luiz Alberto Staut, que trabalhou com o empresário Olacyr de Moraes em meados da década de 80 na fazenda a Itamarati, em Ponta Porã, lamentou sua morte.
A atuação do empresário em Mato Grosso do Sul começou em 1973, quando o território do estado ainda fazia parte de Mato Grosso, na cidade de Ponta Porã, onde ele criou a Itamarati Agro Pecuária. A empresa administrava a fazenda Itamarati, que tinha uma área de 50 mil hectares e onde eram cultivados principalmente soja, milho, arroz, trigo e algodão. Uma parte da propriedade era destinado aos estudos, produção e desenvolvimento de sementes e também para as culturas do feijão, girassol e sorgo.
Como o solo da região não era o ideal para as cultivares que eram plantadas em outras regiões do país, Moraes fez convênios com instituições de pesquisa como a Embrapa e a Universidade Federal de Viçosa e ajudou no desenvolvimento de milhares de variedades experimentais de soja e trigo até encontrar as que melhor se adaptavam as condições de solo e clima e região.
“Por volta de 1983 ele procurou a Embrapa [Agropecuária Oeste, em Dourados] para melhorar a produtividade da soja nas áreas que eram irrigadas pelos pivôs. Muito arrojado, ele queria melhorar a produtividade da média de 30 sacas por hectare e não media esforços. Sempre que apresentávamos um projeto ele nunca perguntava o preço, sempre estava disposto a investir, mas cobrava resultado. Ao final do convênio, cinco anos depois, tínhamos conseguido aumentar a produtividade na área da pesquisa para 50 sacas por hectare, um recorde para a região naquela época”, recorda o pesquisador.
Staut destaca que a agricultura de Mato Grosso do Sul e do Brasil deve muito ao empreendedorismo do empresário. “Ele era muito atirado. Tinha muito informação. Se alguém falava que uma cultura era viável na região e poderia dar dinheiro ele experimentava. Foi graças a isso que investiu também em uma grande propriedade no norte de Mato Grosso, onde foi pioneiro no cultivo do algodão, ajudando, inclusive, a desenvolver a primeira variedade para o Cerrado, o ITA90. Fico muito triste pela perda. Ele foi um visionário, um homem a frente do seu tempo”, concluiu.
O superintendente do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural em Mato Grosso do Sul (Senar/MS), Rogério Beretta, lamentou também a morte do empresário. Ele lembrou que no início dos anos 80 visitou a fazenda Itamarati em Ponta Porã como estudante de Agronomia e se impressionou com a dimensão e a estrutura do empreendimento de Moraes.
“Na década de 80 ele tinha mais de 30 mil hectares cultivados com soja, sendo cerca de 10 mil com pivô de irrigação. Tinha um centro de pesquisas em que criou várias variedades dentro da fazenda e que receberam o nome Itamarati. Ele foi um visionário, um apaixonado pela agricultura, tanto que coisas que fazia lá atrás, como investir em tecnologia, em irrigação é o que buscamos ainda hoje para melhorar a nossa produtividade”, ressaltou.

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