terça-feira, outubro 17, 2017

Ruth Escobar por Lulu Librandi. #RipRuthEscobar #RipLuluLibrandi

Em 2012, minha querida amiga Lulu Librandi escreveu sobre sua grande amiga Ruth Escobar. Fui o último a visitar Lulu no Hospital Sírio Libanês, SP, em 2015. E Agora, outubro de 2017, vai-se a Ruth após Longa enfermidade. Por intermédio de Maria Ruth conheci minha grande paixão cinematográfica Annie Girardot em 1982. Agora as amigas confabulam no plano superior. Saudades de uma época, saudades delas, principalmente dos comadreios com Lulu. 
Ovadia Saadia, SP, triste primavera de 2017
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"Que privilégio ter conhecido e convivido com essa mulher. Sou amiga-irmã de seus filhos, e da família. Meu abraço a todos vocês: Ines, Ruth, Nelsinho, Patrícia, Manoela, todos os netos e muitos amigos ..... Em homenagem, reproduzo abaixo importante depoimento de minha mãe sobre a Ruth: CONHECI RUTH ESCOBAR NOS ANOS 70 EM PARIS ONDE ESTAVA APRESENTANDO PELO MUNDO AFORA OS AUTOS SACRAMENTAIS SOB A DIREÇAO DE VITOR GARCIA. JA ERA FAMOSA POR TER FEITO ANTES ESPETACULOS QUE MARCARAM EPOCA. NUM BRASIL AINDA TIMIDO EM RELAÇÃO A ESPETACULOS DE VANGUARDA. ELA, QUE NUNCA FOI ATRIZ MAS TINHA UM INSTINTO AGUÇADO PARA AVENTURAS EM TODOS OS SENTIDOS. ISSO FOI EM 1974,>COMO EU QUE MORAVA EM ROMA , FUI ATÉ PARIS PARA ME ENCONTRAR COM UMA GRANDE AMIGA, A ATRIZ LEINA KRESPI, QUE JÁ ESTAVA CHEGANDO COM O ESPETACULO APRESENTADO NO FESTIVAL DA PERSIA, TODO ELE PATROCINADO ENTÃO PELO XA DA PERSIA QUE GOVERNAVA O IRA NAQUELA EPOCA. O DIRETOR DO ESPETACULO ERA O ARGENTINO VITOR GARCIA, QUE FEZ UM CENARIO ESPETACULAR ONDE OS ATORES TODOS NUS REPRESENTAVAM O CALDERON DE LA BARCA DENTRO DE UM DIAFRAGMA COMO SE FOSSE UMA MAQUINA FOTOGRAFICA. A EMPRESA DE ENGENHARIA QUE CONFECCIONOU O TAL CENARIO, A MILLS, ENVIOU O MESMO PARA O IRÃ, MAS, INFELIZMENTE NÃO FUNCIONOU. RESULTADO – OS ATORES PASSARAM A REPRESENTAR TODOS NUS – ERAM ELES: LEINA KRESPI, SERGIO BRITO, CELIA HELENA, CARLOS AUGUSTO STRAZZER, ENTRE OUTROS, SENDO QUE A MAIORIA HOJE ESTÁ MORTA.
MULHER DE UMA GRANDE ENERGIA, VIAJAVA.
RUTH, VITOR GARCIA E OS ATORES TOPARAM VIAJAR E PARTICIPAR DE TODOS OS FESTIVAIS DA EUROPA COMO EM PARIS, O FAMOSO FESTIVAL D AUTONNE, NA BIENAL DE VENEZA, E EM PORTUGAL. FICARAM MAIS OU MENOS UNS 6 MESES PELA EUROPA. E RUTH QUE ERA UMA INCANSAVEL VINHA AO BRASIL E VOLTAVA MAIS OU MENOS COM UMA DIFERENÇA DE 3 A 4 DIAS. HAJA ENERGIA. POR OUTRO LADO ELA TINHA TAMBEM CIRCULANDO PELA EUROPA UMA COMPANHIA DE CAPOEIRISTAS DA BAHIA QUE FAZIA UM SUCESSO EXTRAORDINARIO POR ONDE PASSAVAM.

RUTH ERA MUITO SOLIDARIA COM SUA CLASSE , A TEATRAL, NAQUELA ÉPOCA TAO UNIDA SOBRETUDO EM FUNÇAO DE UMA DITADURA QUE CENSURAVA TODOS OS ESPETACULOS QUE ACHASSEM QUE IAM CONTRA OS PRINCIPIOS DOS MILITARES. ASSIM TAMBEM RUTH CRIOU UM MOVIMENTO NO BRASIL E NA FRANÇA PARA LIBERTAR RUDÁ DE ANDRADE, FILHO DA PAGU E DO OSWALD DE ANDRADE, QUE ESTAVA HÁ QUASE 6 MESES NUMA MASMORRA CONGELADO PELO INVERNO NO INTERIOR DA FRANÇA. JUNTO AO EX PRESIDENTE FRANCES FRANÇOIS MITERRAND E O EX MINISTRO JACK LANG, QUE ERA DIRETOR DO FESTIVAL DE TEATRO DE NANCY , RUDÁ , FELIZMENTE FOI LIBERTADO.

QUANDO DECIDI VOLTAR DE ROMA, QUE ERA PARA MIM UMA ESPECIE DE AUTO EXILIO, POIS TAMBEM ESTIVE PRESA, RUTH FOI AO MEU ENCONTRO E LOGO CONVIDOU ME PARA TRABALHAR NO FESTIVAL INTERNACIONAL DE TEATRO. ELA REALIZOU TRES GRANDES FESTIVAIS , TROUXE AS MELHORES COMPANHIAS DE TEATRO DO MUNDO. A COMEÇAR PELO GRANDE DIRETOR ROBERT WILSON QUE ESTÁ NO MOMENTO SE APRESENTANDO NO SESC DE SÃO PAULO.
O ESPETACULO QUE ELE AQUI REPRESENTOU NO TEATRO MUNICIPAL FICOU PARA A HISTORIA – DURAVA 12 HORAS E O PUBLICO NAO ARREDOU O PÉ PASSANDO A NOITE INTEIRA NO TEATRO. ERA O JOSEPH STALIN, ESPETACULO IMPORTANTE DE SUA CRIAÇÃO.
E ASSIM VINHAM COMPANHIAS E ATORES DA FRANÇA , DA ITALIA, DA AFRICA, DOS ESTADOS UNIDOS ENTRE VARIOS PAISES. ... O PUBLICO PRESTIGIAVA. SÃO PAULO VIRAVA DURANTE UM MÊS UMA GRANDE FESTA. OS ONIBUS CIRCULANDO NO BEXIGA, QUE ERA O CENTRO TEATRAL DE SAO PAULO, CHEIO DE ARTISTAS QUE SE JUNTAVAM PARA JANTAR NO GIGETO, NO PIOLIM, NO ANARELO.
ALI, NA VERDADE, A RUTH CONSEGUIA O APOIO NA ALIMENTAÇÃO, ASSIM COMO O HOTEL COMODORO DO DR.PAULO MEIMBERG, NA AVENIDA DUQUE DE CAXIAS, PATROCINADOR DAS HOSPEDAGENS.
QUANDO TERMINAVA O FESTIVAL EU VIAJAVA IMEDIATAMENTE COM RUTH PARA A EUROPA, PARIS, ROMA, NOVA YORK PARA ELA ESCOLHER OS NOVOS ESPETÁCULOS JÁ PARA O PROXIMO FESTIVAL.
EM PARIS, A AGENTE DELA ERA MADAME NINOM KARVALIS, NA ESPANHA NURIA ESPERT E, EM NOVA YORK, NADA MENOS QUE JOSEPH PAPPE, O REI DOS ESPETACULOS DA BRODOWAY, ASSIM COMO O OFF BROADWAY DO LA MAMA.
PASSADO UM DOS FESTIVAIS, IMEDIATAMENTE A RUTH INVENTOU DE TRAZER UMA SHOW WOMEN ARGENTINA, CHAMADA NACHA GUEVARA, QUE VIVIA EXILADA NO MEXICO. AI SIM , A CENSURA BRASILEIRA ENLOUQUECEU E DIZIA NÃO VENHA. COMO NACHA GUEVARA ERA SEU NOME ARTISTICO, RUTH DRIBLOU A MILICAGEM E A TROUXE COM SEU NOME VERDADEIRO. DAÍ COMEÇAMOS, EU , ELA , A PEREGRINAR PELA POLICIA FEDERAL, POR BRASILIA, ATRÁS DO GENERAL GOLBERY DO COUTO E SILVA, ESTRATEGISTA MILITAR , PODEROSO, PARA QUE DEIXASSEM A NACHA FAZER O SEU SHOW. SHOW ESSE SOFISTICADISSIMO, ELA CANTAVA MUSICAS LINDAS DE PROTESTOS DOS CUBANOS , URUGUAIOS FAMOSOS E FOI UM SUCESSO EXTRAORDINARIO. ERA ELA E SEU MARIDO, O PIANISTA EM CENA ONDE ELA, VESTIDA DE SMOKING, CANTAVA E DANÇAVA. UMA MARAVILHA. TRABALHEI DOIS MESES COM ELES E FIQUEI MUITO FELIZ, DE TÃO BOM GOSTO ERA TUDO AQUILO.
LOGO APÓS NACHA GUEVARA, A RUTH RESOLVEU TRAZER O AUTOR DE TEATRO E ESCRITOR, QUE VIVIA HÁ ANOS TAMBEM EM SEU EXILIO DA ESPANHA EM PARIS, FERNANDO ARRABAL. E A PEÇA QUE A RUTH ESCOLHEU PARA MONTAR EM SÃO PAULO FOI "TORRE DE BABEL." COMO SEMPRE ELA DEIXAVA OS CENOGRAFOS DESTRUIREM TODA A CAIXA DE SEU TEATRO PARA ABRIGAREM CENARIOS ENORMES COMO O GALPÃO DE JEAN GENET , ( O CENOGRAFO FOI UM DE SEUS MARIDOS QUE FEZ TAMBEM O CEMITERIO DE AUTOMOVEIS, O WLADIMIR CARDOSO).
NO ARRABAL, EU, PRODUTORA EXECUTIVA, LIDAVA COM O LUIZ CARLOS RIPPER, GRANDE CENOGRAFO, MORREU HÁ ANOS DE AIDS E QUE FEZ UMA MARAVILHA – UM TERREMOTO NO MEIO DA PEÇA, QUE DURAVA MAIS DE 5 MINUTOS. TINHA ATÉ UM JEGUE, DE VERDADE , EM CENA, QUE EM TODAS AS APRESENTAÇÕES DESCIA TRES ANDARES DE ESCADA PARA SUBIR AO PALCO E A NOITE SUBIA OS TRES ANDARES PARA FICAR TOMANDO AR E FAZENDO SUAS NECESSIDADES NA RUA DOS INGLESES, NO TEATRO RUTH ESCOBAR. E EU GRITAVA A TODOS – ‘ NUNCA VI CAVALO SUBIR ESCADAS” O QUE É UMA VERDADE. MAS COM RUTH TUDO ERA PERMITIDO.
ELA TINHA UM EXCENTE HUMOR, ERA DIVERTIDA, BERRAVA COM TODOS, DEPOIS GARGALHAVA. TOMAVA APENAS CAFÉ. MAS ALCOOL JAMAIS. ERA DESTEMIDA.
UMA VEZ VIAJANDO COM ELA EM PARIS E DORMINDO NO MESMO QUARTO EU DISSE A ELA DA BELEZA EM MOSTRAR A CARECA. E ELA ME DISSE QUE SE FOSSE EM NOVA YORK ELA VIVERIA SEM PERUCA MAS NUM PAIS MEDIOCRE E PRECONCEITUOSO COMO O NOSSO ELA NÃO TINHA CORAGEM PARA TAL.UMA VEZ ELA PROCESSOU UM COLUNISTA DO JORNAL DA TARDE, QUE FEZ ALUSÃO SOBRE APERUCA. ALEM DE GANHAR O PROCESSO NA JUSTIÇA , NA FRENTE DO JUIZ ELA PEDIU QUE PERDOASSE A DIVIDA QUE ELE TERIA PARA COM ELA, POIS ELA SABIA QUE JORNALISTAS GANHAM POUCO.
ME ADORAVA, MASAS VEZES EU PERDIA A PACIENCIA E ME AFASTAVA. MAS ELA SEMPRE VOLTAVA A ME PROCURAR E EU NUNCA NEGUEI MINHA AMIZADE COM ELA.
APENAS DISSE QUE SERIAMOS GRANDES AMIGAS MAS TRABALHAR COM ELA ERA UMA PAULEIRA.
ME DIZIA QUE AO DORMIR UM LADO DA CABEÇA TRABALHAVA E OUTRO DORMIA. ELA NÃO PODIA FICAR QUIETA NUNCA.
TALVEZ PORQUE TEVE UMA INFANCIA SOFRIDA NO OPORTO, EM PORTUGAL, QUE NAQUELA ÉPOCA, FILHA DE MÃE SOLTEIRA ERA UM CRIME. FOI MUITO MALTRATADA ME DIZIA. NA VERDADE ELA VENCEU SOZINHA AO VIR PARA O BRASIL COM 16 ANOS COM A MÃE, MORAVAM NUM QUARTINHO DA MOOCA. PARECE QUE CURSOU ATÉ O GINASIO. UMA AUTODIDATA E INTELIGENTE. CRIOU UM JORNALZINHO PARA A COLONIA PORTUGUESA, FEZ A VOLTA AO MUNDO ONDE ENTREVISTOU VARIAS PERSONALIDADES DA EPOCA, COMO O NASSER, PRESIDENTE DO EGITO, ENTRE MUITOS OUTROS, E DAÍ JÁ GRAVIDA CONSEGUIU O TERRENO DA PRAÇA COM O GOVERNADOR ADEMAR DE BARROS, NA ÉPOCA, E LÁ CONSTRUIU OS TEATROS QUE ATÉ HOJE ESTÃO FUNCIONANDO.
ADORAVA FAZER REUNIÕES SUBVERSIVAS OU NÃO, SOBRE POLITICAS PUBLICAS PARA O TEATRO, TUDO ISSO JUNTANDO GENTE OU EM JANTARES EM SUA CASA, OU NO PROPRIO TEATRO. FOI AMIGA DE CACILDA BECKER, DE RAUL CORTEZ, DINA SFAT, REGINA DUARTE QUE A ADORAVAM, DISSO SOU TESTEMUNHA.
AJUDOU MUITA GENTE
HOJE, COM ALZHEIMER EM SUA CASA AINDA NO PACAEMBU, ONDE VOU SEMPRE, E VIGIO SE AS COISAS ESTÃO BEM UMA VEZ QUE FOI INTERDITADA POR UMA DAS FILHAS E ESTÁ SOB JUDICE, NAS MÃOS DA JUSTIÇA.
GANHOU BASTANTE DINHEIRO COM O TEATRO, GANHOU. TIROU DINHEIRO DE TODOS OS POLITICOS E MANDATÁRIOS DESTA REPUBLICA BARATA EM QUE VIVEMOS ONDE OS MESMOS NÃO ESTÃO NEM AI PARA A CULTURA. ELA FEZ MUITO BEM, POIS HOJE NINGUEM, A NÃO SER O DANILO MIRANDA DO SESC, QUE TRAZ GENTE FAMOSA, VIVEMOS NUMA POBREZA TRISTE E FRIA, SEM NENHUM CONTROLE E CORRENDO E CONCORRENDO NESSAS LEIS DE INCENTIVO PARA ONDE O TEATRO E OUTRAS ARTES FORAM SENDO EMPURRADAS.
O QUE RESTA DIZER É SAUDADES DELA. ELA SE AUTODENOMINAVA DE GENERALA E A MIM DE CORONELA POIS ERAMOS DUAS TRATORZONAS.
LULU LIBRANDI
PRODUTORA CULTURAL
E AINDA AMIGA DA RUTH ESCOBAR AINDA QUE ELA NÃO ME RECONHEÇA MAIS
SÃO PAULO, 18 DE ABRIL DE 2012"
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Morreu na tarde desta quinta-feira, pouco depois das 13h30m, a atriz, empresária e produtora teatral Ruth Escobar, de 82 anos. Ela sofria de Alzheimer e estava internada no Hospital Nove de Julho, em São Paulo, onde vivia. O velório será realizado no Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, a partir das 22h desta quinta e segue até às 11h desta sexta-feira, quando o corpo será levado para o crematório da Vila Alpina. Devido ao falecimento da atriz, a sessão do espetáculo "Senhorita K.", que seria realizada nesta quinta, às 21h, foi cancelada.
Empreendedora inclinada ao pioneirismo, ao risco e à controvérsia, Maria Ruth dos Santos Escobar se consolidou, entre os anos 1960 e 1980, como a mais ousada empreendedora teatral do país. Como atriz, produtora e idealizadora, seu nome está gravado em algumas das mais ambiciosas e arrebatadoras criações do teatro brasileiro — responsáveis pela passagem do teatro moderno para o que se chama, hoje, de teatro contemporâneo.
Foi ela a responsável por trazer ao Brasil, pela primeira vez, montagens de ícones do teatro mundial, como os poloneses Jerzy Grotowski (1933-1999) e Tadeuz Kantor (1915-1990), o argentino Victor García (1934-1982), o americano Robert Wilson, assim como produziu criações importantes de grandes encenadores brasileiros, como Antunes Filho, Antônio Abujamra e Gerald Thomas.
Nascida na cidade do Porto, em Portugal, em 31 de março de 1935, Maria Ruth dos Santos Escobar começou a fazer teatro aos 14 anos, numa peça do grande dramaturgo português Gil Vicente, "pois queria fazer o melhor teatro do mundo", dizia. Talento e ambição a acompanharam desde cedo, e um ano depois de sua estreia teatral, a atriz deixou Portugal, aos 15 anos, e chegou ao Brasil em 1951. Aqui, pouco tempo depois, casou-se com o filósofo e dramaturgo Carlos Henrique Escobar e, em 1958, partem juntos para a França, onde Ruth se dedica a cursos de interpretação. Ao retornar ao Brasil, no começo dos anos 1960, realiza seu primeiro empreendimento teatral, a formação da sua própria companhia, a Novo Teatro, em parceria com o diretor Alberto D'Aversa.
Após produzir e atuar em diferentes montagens do seu grupo, Ruth decide dar um passo além, e realiza, em 1964, um dos primeiros projetos sociais vinculados à arte do país, o Teatro Popular Nacional. O projeto surgiu da vontade de Ruth em realizar um teatro popular e que pudesse ser assistido por todos. A produtora, então, comprou um ônibus e o transformou num palco móvel, que passou a percorrer a periferia de São Paulo e apresentar diferentes peças de teatro.
Inquieta e apaixonada por vanguardas artísticas, neste mesmo ano ela ergueu o seu próprio teatro. Casada à época com o arquiteto Wladimir Pereira Cardoso, que se tornou o cenógrafo de suas produções, Ruth produziu grandes montagens, como "A ópera dos três vinténs" (1964), de Bertolt Brecht e Kurt Weill, com direção de José Renato; "O casamento do Sr. Mississipi" (1965), de Dürrenmatt, dirigida por Jô Soares; "As fúrias" (1966), de Rafael Alberti, com encenação de Abujamra; até "Lisístrata" (1968), de Aristófanes, encenada por Vaneau.
Foi neste mesmo 1968, às vésperas do AI-5 e sob uma ditadura cada vez mais pesada que Ruth realizou a primeira de suas grandes parcerias com o diretor e enfant terriblé Victor Garcia — as montagens de "Cemitério de automóveis" (1966) e de "O Balcão" (1969) são até hoje consideradas divisores de águas do teatro brasileiro. Em 1966, Ruth convidou o diretor franco-argentino para recriar no Brasil a sua montagem para "Cemitério de automóveis", de Fernando Arrabal, encenada no começo daquele ano em Paris. Para o projeto, Ruth alugou uma antiga garagem que foi totalmente remodelada para a encenação. A montagem consagrou não apenas a capacidade de realização da produtora, mas o talento da atriz Ruth Escobar, que protagonizou a obra ao lado de Stênio Garcia em meio a máquinas, carcaças de veículos, motores, guindastes e demais peças e equipamentos mecânicos que compunham a ambientação cênica do espetáculo. A plateia era acomodada em cadeiras giratórias que permitiam uma experiência em 360º. Com figurinos exóticos e muita nudez, a encenação causou escândalo e arrebatamento em iguais medidas, levando o crítico Sábato Magaldi a considerá-la um evento marcante da História do teatro brasileiro:
"O desempenho liberto da dicção realista, o desenvolvimento antipsicológico dos conflitos, a violência física e as evoluções acrobáticas punham diante de nós um universo inédito, cujos paralelos teóricos parecem irmanar-se ao ritual artaudiano ou mesmo grotowskiano", escreveu o crítico.
Seu prestígio aumenta, em 1969, com a produção de "O balcão, de Jean Genet, também dirigida por García. A produção arrebatou todos os prêmios importantes do ano e Ruth foi agraciada com o troféu Roquette Pinto para a personalidade do ano. Para cada espetáculo, Victor elaborava um novo projeto arquitetônico: “O essencial é encontrar uma arquitetura”, dizia. Assim, com a anuência de Ruth, o diretor destruiu o palco italiano do Teatro Ruth Escobar e instalou ali uma edificação de cinco andares, de onde descia uma rampa em espiral de nove metros cercada por elevadores, guindastes e gaiolas, por onde atuavam nomes como Raul Cortez, Ney Latorraca, Lilian Lemmertz, Sergio Mamberti e muitos outros. Gerald Thomas, que assistiu a “O balcão” no começo da adolescência, recorda o impacto:
— Victor dirigia o que estava em volta, o entorno. Aprendi isso com ele. Instaurava climas, sensações, estados de percepção. Não conheci ninguém que fizesse isso — diz. — Ele estava à frente, tinha uma visão pós-moderna nos anos 1960, mas não era verbalmente articulado. Era um sujeito encantado, que olhava diferente, sempre meio fora do ar. Era a mistura de Artaud e Rimbaud. Não só um diretor de teatro, mas um artista completo que, por acaso, fazia teatro. Ele me influenciou, influenciou Bob Wilson e muitos outros. As pessoas devem muito a ele. Victor era um vaga-lume com uma luz na bunda.

Cinco canos depois, Ruth idealizou e produziu o primeiro grande festival internacional de artes cênicas de São Paulo, o Festival Internacional de Teatro, cuja primeira edição foi realizada na capital paulista, em 1974. O ambicioso projeto se encarregou de apresentar, pela primeira vez no país, uma encenação de Wilson, "The life and times of Joseph Stalin", cujo título foi alterado para "The life and times of David Clark" por determinação da censura. Nesta mesma primeira edição, o festival também apresentou a versão de Victor García para o clássico "Yerma", de Federico Garcia Lorca, com Nuria Espert em cena, assim como também se apresentaram os diretores Andrei Serban e Grotowski.
Dois anos depois, outro ousado projeto de sua autoria voltou a enfrentar a resistência da censura. A Feira Brasileira de Opinião, que reunia textos dos mais destacados dramaturgos da época, foi interditada pelos militares, gerando prejuízos inesperados para a produtora.
Militante da Anistia Internacional, Ruth atuou firmemente contra a ditadura militar brasileira. Chegou a ser enquadrada na Lei de Segurança Nacional e teve seu teatro destruído pelo CCC (Comando de Caça aos Comunistas) às vésperas da estreia de “Roda viva”, de Chico Buarque e direção de Zé Celso Martinez Corrêa, em episódio que a levou à prisão, ao lado de Marília Pêra. Controversa e intempestiva, ao mesmo tempo em que era perseguida por suas críticas políticas e realizações artísticas, buscava e conseguia recursos nos gabinetes dos políticos do regime que tanto combatia — na peça “Torre de Babel” (1977) pôs em cena um burro chamado Ernesto, em referência ao general Geisel, que presidia o país no momento. Essa relação conflituosa chegou a ser objeto de estudo da tese de doutorado “O embate além do sangue e da carne de Ruth Escobar: censura e ditadura militar”, do historiador Éder Sumariva.
— Ruth travava embates homéricos com os censores e buscava no poder público os recursos financeiros para as peças. E conseguia! Nada era impossível para ela — disse o historiador ao GLOBO, 2013. — Ela tinha verba do Serviço Nacional de Teatro, da Funarte. Ia atrás de dinheiro com políticos (foi deputada duas vezes nos anos 1980). Não tinha pudor em pedir. E fazia muitas peripécias.
Quando quatro atores de “A Revista do Henfil” foram presos em Santos pelo Dops, Ruth invadiu a delegacia ao lado de Eduardo Suplicy.
— Soltaram todos — disse Éder. — Outra vez, no Dops de São Paulo, fez tanta algazarra que um policial gritou: “Liberem este ator antes que ela coloque fogo aqui.”
Além de ativista política, Ruth também era uma feminista aguerrida, e foi uma das fundadoras, em 1978, da Frente de Mulheres Feministas do Estado de São Paulo. Nessa mesma época, filiou-se ao MDB (atual PMDB), e foi uma das responsáveis por criar o PMDB Mulher, cujo objetivo era lutar pelos direitos das mulheres. Após cumprir dois mandatos como deputada estadual pelo PMDB (1981-1987), acabou expulsa do partido, voltando ao teatro e à carga na produção de mais quatro edições do seu festival internacional, em que apresentou companhias fundamentais, como o Cricot 2, de Tadeusz Kantor, o grupo japonês Dumb Type, o russo Levdodine, Michell Picolli, entre outros.
Em 1987, Ruth lança "Maria Ruth - Uma Autobiografia", em que narrea parte da sua trajetória. E três anos depois, em 1990, retorna aos palcos numa encenação de Gabriel Villela para "Relações perigosas", de Heiner Müller.
Ao analisar sua importância na cena artística brasileira, a crítica e ensaísta Ilka Marinho Zanotto observou: "Se quiséssemos traçar a evolução do teatro brasileiro no século XX [...] teríamos forçosamente de incluir entre os cumes de suas realizações a trajetória polêmica da atriz-empresária Ruth Escobar. Marcada pelo signo do inconformismo, pelo faro do verdadeiramente artístico e do anticonvencional".
Em 2000 Ruth Escobar começou a a sofrer com o Alzheimer, e em 2006 a atriz foi interditada, a pedido de familiares, e seu patrimônio passou a ser administrado por um escritório de advocacia.

Crônica de Gui Castro Neves:
 jovem Jack Lemmon com...
***RUTH ESCOBAR (1935-2017)***
Não há tragédia na morte de alguém com 82 anos, mas a morte de Ruth Escobar é uma tragédia.
Ela saiu da vida pública há uma década, e nestes últimos dez anos, só vi ser lembrada à larga em duas ocasiões:
2011, quando a família fez um apelo por ajuda em seu tratamento de saúde e questão financeira, e também quanto a deterioração do seu patrimônio e acervo. Ela teve cinco filhos;
2015, vez em que o excelente programa ‘Persona Em Foco’ (TV Cultura), prestou-lhe uma homenagem.
No mais durante este período, nenhum dos seus inúmeros amigos e colegas, trouxe a memória de Ruth Escobar à tona.
É impressionante a quantidade de artistas brasileiros que Ruth levou pelo exterior com seus espetáculos, assim como os estrangeiros que trouxe ao Brasil pelo mesmo motivo, mais notadamente Jerzy Grotowski (1932-99), Fernando Arrabal (85), e acima de todos, Jean Genet (1910-86).
Reis e presidentes internacionais formaram plateia para Ruth Escobar! Está tudo documentado. Até Farah Diba, no auge da popularidade, marcou presença.
Antes de tudo isto, neste registro de junho de 1954 (foto), Ruth já era editora, e de publicação própria. Aqui entrevista Jack Lemmon, provavelmente na Columbia, no dia em que mais tarde nasceria o filho dele, que correu dali para o hospital.
Durante a mesma temporada em Hollywood, destacou a visita pelos estúdios da MGM e sua constelação de “mais estrelas que o céu”. Infelizmente, Ava Gardner encontrava-se suspensa nesta ocasião, e a caminho da sua própria turnê, que incluiu o Brasil.
Um par de anos depois, Ruth era fotografada em Paris na companhia de nomes como René Clair, Gérard Philipe, Suzanne Flon. Sem contar os chefes de estado. Este foi o ensaio de como um dia faria as associações do teatro brasileiro com o mundo.
Sua importância política, social e cultural, transcendeu a arte. Por isso, fico chocado quando certa personalidade do entretenimento, na atualidade, é exaltada por declarar que não se posiciona politicamente, porque não possui pleno conhecimento do assunto para tal. O que muito adequado para quem também não tem conhecimento, da proveniência de seus cachês.
Enfim... Além da responsabilidade do artista e da figura pública, e Ruth era os dois, também muito se discute hoje o empreendedorismo no teatro, termo para o qual tenho Ruth Escobar como sinônimo. Ano que vem, seu lendário teatro em São Paulo completa 55 anos.
Devia ser uma figura e tanto. Seu rosto sempre me pareceu uma mescla dos de Dulcina, Cacilda e Bibi. E que outra de sua geração, contaria que teve em uma mulher seu primeiro amor?
Temos sorte de encontrar em livros a sua história, pois a maioria dos nossos grandes personagens, nem esta obrigatoriedade recebeu. Podemos ler sobre ela em ‘Dossiê de Uma Revolução’ (1982), ‘Teatro Ruth Escobar: 20 Anos de Resistência’ (1985) e ‘Minha Ruth’ (1987). Todos há muito esgotados, mas ainda possíveis de encontrar para quem realmente se interessar.
Como muitos brasileiros notáveis, Ruth não nasceu no Brasil, mas este foi o lugar certo para ela, alguém com a inclinação de oferecer mais do que receber.
Gui Castro Neves


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